No cenário de destruição, a esperança de vida persiste
Com trabalho duro, coragem e ajuda de voluntários, equipes de resgate desafiam o tempo e conseguem salvar gente em locais de difícil acesso
Bruno Guedes, João Erthal e Manuela Franceschini
Marcio de Souza mostra as mãos: ele salvou três pessoas cavando a lama
Tudo isso tendo como base informações muito frágeis. A força da enxurrada mudou tudo de lugar. Mesmo quando a referência original é precisa, ela pode ter pouco valor para quem tenta localizar um parente ou amigo. Tudo foi revirado e misturado, soterrado sob uma espessa camada de lama que deixa entrever pedaços de carro, telhados de casas e outros poucos vestígios da vida que havia ali há menos de uma semana.
Nada disso desanima as equipes da Defesa Civil, dos Bombeiros, do Exército, e os voluntários que procuram ajudar. Essas pessoas são movidas pela esperança, embora encontrem a morte a cada passo. Próximo à igreja metodista, muito perto de onde esteve na sexta-feira o governador Sérgio Cabral, bombeiros conseguiram chegar a uma casa soterrada, onde morava Alexandra Câmara de Oliveira. Eles foram guiados por um tio dela, que não sabia ao certo se a sobrinha estava no Vale ou tinha viajado. Depois de quatro horas de trabalho, encontraram Alexandra morta, na cama. Acreditam que ela foi soterrada enquanto dormia. Ali perto, outro corpo, de um homem adulto não identificado foi encontrado.
Mais adiante, pouco antes do ponto final de ônibus do Vale do Cuiabá, foram encontrados os corpos de uma família inteira. Grazieli Aparecida Teixeira Garcia, a mãe dela, Maria Francisca, e os filhos João Pedro, de 8 anos, e Luís Felipe, de 6. Depois do ponto, num lugar conhecido como Condomínio, mais um corpo – o de uma mulher de aproximadamente 70 anos, identificada por conhecidos como dona Eli.
A falta de equipamentos é outro problema recorrente. Em Teresópolis, as equipes da Lei Seca foram destacadas para ajudar no resgate. No entanto, sem ferramentas e cavando a lama com as próprias mãos, pouco puderam fazer. Em Itaipava, o major Ramon Camilo, do Corpo de Bombeiros, pede mais retroescavadeiras, equipamento fundamental para vencer a espessa camada de lama.
O sargento André Luiz: 31 pessoas resgatadas numa casa
O produtor de cinema Christian de Castro e sua mulher, Marta Zimpeck, viveram um dos momentos mais emocionantes da série de resgates. Eles estavam no Vale do Cuiabá na noite da terça-feira, 11, hospedados na casa de um amigo, o empresário Milton Tesseroli. Haviam subido para um jantar de negócios, e planejavam voltar para o Rio no dia seguinte. Durante a madrugada, o susto: o barulho da tempestade acordou o casal, que só pela manhã teria noção do tamanho da catástrofe que devastou o vale. “Era forte o cheiro de mato e terra durante o temporal. Pela manhã, soubemos que estávamos ilhados”, contou Christian.
A propriedade de Tesseroli – que perdeu uma casa em São Conrado, no Rio, em 1996, em um deslizamento de terra – nada sofreu. Na quarta-feira, a família do empresário foi resgatada de helicóptero. Christian e Marta entenderam que o fato de estar no Vale do Cuiabá naquele dia não era obra do acaso. "Achamos que tínhamos algo a fazer ali, e começamos a ajudar o Milton, que tem um veículo com tração nas quatro rodas e começou a circular dentro do limite que as barreiras permitiam”, lembrou ele.
Em uma das viagens pela Estrada do Cantagalo, auxiliando bombeiros, o produtor de cinema acabou participando do resgate dos trigêmeos Rafael, Tiago e Valentina, de um ano e meio. Eles foram salvos, junto com os pais e outras três pessoas da mesma família. “Valentina é o nome da nossa filha, foi de arrepiar”, emocionou-se o cineasta.
Fonte: Veja/ http://sargentoricardo.blogspot.com/
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